domingo, 26 de setembro de 2010

Joshua Benoliel - "Embarque do Corpo Expedicionário Português para a Flandres" (1917)





Chovera ou prometia chover e era Inverno. As duas mulheres à esquerda transportam guarda-chuvas e os seus casacos compridos estavam abotoados. O chão parece um pouco enlameado, devendo sujar os sapatos de fivela e, presumo, de pequeno salto de ambas as mulheres. Atrás, uma terceira mulher tem um rosto mais entristecido. De lenço negro, possivelmente já se havia despedido do namorado ou marido, a caminho da Flandres, onde muitos portugueses morreriam na frente da batalha (La Lys, 9 de Abril de 1918). Talvez o namorado fosse o soldado de bigode que vemos à direita, cabisbaixo, já a caminhar.
O rapazio, do lado esquerdo da imagem, acompanha a marcha dos soldados entre o medo e o espanto da movimentação. Verifico a cor da pele deles, muito meridional. Mas fixemo-nos agora no casal da frente.
A rapariga, de rosto muito fino e estatura mediana, tem os olhos semicerrados. O soldado pega meigamente no queixo da mulher prestes a rebentar em choro, após o último beijo. Eles sabiam que a despedida podia não ter regresso. Na mesma mão onde segura o guarda-chuva, tem um pequeno embrulho preso por corda. Não se sabe se o embrulho se destinava ao soldado, já de mochila às costas, de um pequeno haver dela ou de peça de roupa para entregar a uma cliente (efabulemos que ela era costureira).
À parte estes dramas pessoais, o quadro deve ser compreendido ao nível mais vasto da sociedade. Depois de se ter comprometido com o país que não enviaria tropas para a frente da batalha da Primeira Guerra Mundial, Afonso Costa, primeiro-ministro, mudou de ideias. O país atravessava uma conjuntura política e económica difícil; melhor não ficou, arrastando-se por entre o descontentamento e a escassez de bens de primeira necessidade, enquanto chegavam as notícias das primeiras baixas em combate. A repressão interna teve lugar no Verão e Outono desse mesmo ano de 1917. No final do ano, Sidónio Pais assumia o poder, instaurando uma ditadura militar (no final de 1918, Sidónio seria assassinado).
Possivelmente, o namorado daquela mulher ainda muito jovem (19 anos? 20 anos?) não regressou ao cais da estação de Santa Apolónia. Qual terá sido o percurso da rapariga? Arranjou outro namorado, casou e teve filhos? Ou ficou viúva para toda a vida? Que alegrias teria, passados os anos de juventude?





2 comentarios:

Manuel dixo...

O meu comentario ten que ver coa fotografía: parece mesmo unha composición, con dous flancos (soldados e xente) que enmarcan a escea principal, un representante de cada "bando" se aproximaron e estanse a despedir. Encántanme estas fotos históricas con tan bo encadre e que tanto contan.

Heladio dixo...

Si, a min tamén me encanta. Respecto da composición haique ter en conta que tamén hai civís no outro lado da rúa.
Para entendela hai que ter en conta a data, 1917, cando xa ían tres anos de matanza e os recrutas e a xente xa non amosan o inxenuo e lamentable entusiasmo de 1914. Agora os soldados xa saben que non é unha aventura e a xente despídeos con tristura, acompañádoos no sentimento.
Que parvada levou aos portuguese ás trincheiras?